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Aconchegância

Outubro 6, 2009

Existem comidas fófis que só de falar o nome dá uma quentura no coração que minha nossa. São aqueles quitutes da infância, desastradamente abalroados pela vida real.

Hoje a rapaziada reclama que não dá mais tempo de comer. Na hora do almoço, a firma tá sempre esperando o retorno rápido do peão pra baia do desespero. Mas lembra como era bom destruir um bolinho de chuva, manter aquela bigodeira de açúcar e canela, lamber os dedos e beiços pra começar tudo de novo?

Então voltemos no tempo para configurar o perfeito conforto estomacal e espiritual do tempo que comer fazia sentido, porque era simples, bom pra cacete. Sem pressa. Era comer e prosear, prosear e comer.

Vem comigo e sinta a aconchegância:

broinha-de-fubaBroinha de fubá mimoso

Aí ninguém segura, mermão. Com esse nome dá até dó de arrebentar o pãozinho imortalizado pelo canhestro literato Dalton Trevisan como símbolo do conforto da vida simples. No belíssimo livro de contos O Rei da Terra, tem uns quatro camarada que lamentam a ausência da broinha de fubá mimoso em suas vidas. Com razão.

bolo-de-cenoura-com-gotas-de-chocolateBolo de cenoura com calda de chocolate

Sacaneou. Quem nunca enfiou o dedo na maravilhosa lava marrom e degustou de olho fechado a maravilha de chocolate que escorre do indicador, que faça isso com urgência. E na hora que cortarem a fatia, dê uma espatulada pra raspar o tacho e esfregue na colina laranjada. Irrepreensível.

suspiroSuspirinho de recheio mole

O bróder que inventou esse troço tava cheio de maldade no coração. Pra clara de ovo e açúcar se transformar nisso, há de haver magia. Recoste-se na poltrona, ponha um inteiro na boca e espere derreter. Em seguida, faça questão de colar os molares um no outro com o material subsequente. Repita até implorar por água.

qQuindim

A beleza do quindim está na degustação em duas etapas. Não se deve morder na vertical, mas na horizontal. Pegue o bichinho e utilize a arcada inferior para raspar aquela gema de ovo estupenda. Analise sua configuração dentária no que resta, veja se ainda precisa de aparelho, e passe a mordiscar a base. Glóriadeus.

ovos nevadosOvos nevados

A pessoa tem a cara de pau de preparar um mingauzinho aguado, sabor incrustado de baunilha, e ainda botar por cima claras em neve pra criançada brincar. Aí qualquer um navega os mares amarelos, empurrando com a colher o veleiro açucarado até o naufrágio final, na goela.

sequilhosBolinho de polvilho

É proibido morder. O lance do famoso sequilho é botar na boca e promover o vácuo enquanto ele murcha no contato com a baba. Aí vai ficando pequenininho, pequeninho, até que você obrigatoriamente mostra a língua para o irmão mais novo, como se tivesse conquistado a Libertadores com gol de mão aos 47 do segundo tempo.

Essas são apenas algumas das maravilhas nostálgicas da memória gastronômica de alguns de nós. E você, sente mais aconchegância com qual? Nenhum desses aí? Então se explique nos comentários e faça-se um favor: antes de ir a algum restaurante chiliquento e pagar o olho da cara, lembre-se deles. Da prosa e da simplicidade.

Vai um cafezinho?

Bigodeira, só a chefia

Abril 24, 2008

A imagem caricata de chef de cozinha é a do gordinho, com roupas características e, invariavelmente, uma bigodeira.

Óia aí:

Com essas ilustrações e o bonequinho superfófis você pensa: Ai, como eles são simpáticos!

Mas quem é que já parou pra pensar na razão de ser da bigodeira dos chefs? O George Orwell parou.

Em “Na pior em Paris e Londres”, a fera descreve as antipáticas relações humanas em uma cozinha de hotel parisiense, lá pelos idos de 1920. Saca só:

“Garçons em bons hotéis não usam bigodes, e para mostrar sua superioridade eles decretam que os ajudantes tampouco podem usá-los; e os chefs usam bigodes para mostrar desprezo pelos garçons.”

Mas então essa fofurice toda é lenda? É o que dizem. A bigodeira, até na cozinha, tem função social.

Acontece que esse troço ao menos em partes acabou, vide esses aparecidos da TV Jamie Oliver, Gordon Ramsay e Nigella Lawson. Nenhum deles têm bigode. Restava-nos apenas tradicionalistas como o grande Swedish Chef. Dono de uma simpaticíssima bigodeira, ele fazia pratos incríveis. Pena que o programa dele acabou.

Pra relembrar, aí vai o Swedish Chef em uma simples receita de rosquinhas:

Explosão gástrica

Abril 22, 2008

Caros deleitosos leitores,

estreamos o Engasgo com a resenha de um filmaço pra quem curte comida e sacanagem, os famigerados escapes de vida moderna. O carretel, porém, é velho. Foi lá nos idos de 1973 que franceses e italianos gravaram “A Comilança”. Película no mínimo polêmica. Confira e veja se vale os 10 contos da locadora.

E mais abaixo, no post anterior, tem a estréia da seção “Máximas gastronômicas”, com palavras chulas de ídolos mundiais sobre a arte da boa alimentação.

Degustem!

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Patê de ganso, suor e ouriço

Acontece que esse filme não é pra qualquer um. Sem querer limitar a audiência, longe de nós aqui do Engasgo, mas A Comilança (La Grande Bouffe, 1973, FRA/ITA, 123 min), de Marco Ferreri, é osso duro de roer. Afinal, não é em toda película que um morre sentado num caldo de cocô, enquanto outro enfarta ao mesmo tempo em que é masturbado e se entope de patê de ganso.

Porém, o filme é famoso, tal e coisa, e quem gosta de comida e seus desenvolvimentos precisa assistir. Dizemos o porquê: ora, a graça dessa obra-prima que mescla com louvores a escatologia e a culinária está no humor negro. Então encare por esse lado, pare de nove horas e se divirta com a historinha que se segue.

Quatro rapazes desinibidos de meia-idade deixam suas profissões e seus lares para engrenar numa orgia gastronômica até a morte. Hoje em dia, duas semanas de fast food resolviam, mas nos idos de 1973 eles apelaram para a haute cuisine 24 horas por dia, o que também causa seu frisson intestinal.

Não bastasse a zorra emérita na cozinha, um dos metidos na confraria, Marcello (Marcello Mastroianni, gênio da raça) decidiu chamar umas moças, dessas que pegam amizade fácil, para completar a fatura e chutar o balde de vez.

A coisa demora até o pega-pega pelado. Mas quando o oba-oba implode, dá-lhe garotas desnudas chapiscadas de mousse de chocolate. Mais em frente, dá-lhe popô nu sentando em bolo, deixando as famosas marquinhas, combinando o prazer da comida bem preparada com os demais prazeres carnais.

“Ah, a professorinha…”

O problema é que a rapaziada não pára de comer um minuto. E a morte se aproxima pra dar a foiçada. Claro, todo mundo sabe, uma hora o preparo físico despenca e as moças, em plena frustração, começam a debandar. Destaque para a única remanescente, a professorinha, que se revela uma safada de primeira linha.

Quem assiste a tudo isso é um bando de cachorros, que aumenta a cada dia que passa. Pelo cheiro de rango ou de morte, não dá para saber. Mas é igualzinho àquelas churrascadas de igreja.

Onde? – Na loja e na locadora.

Pra assistir comendo…- Pipoca e guaraná, no máximo.

Elenco: Marcello Mastroianni, Ugo Tonazzi, Michel Piccoli, Philippe Noiret, Andréa Ferréol, Solange Blondeau, Florence Giorgetti, Michèle Alexandre, Monique Chaumette, Henri Piccoli

Momento Polêmico: O maravilhoso óbito de Piccoli, deixando seu rombo na camada de ozônio.

“Depois dizem que manga com leite é lenda”