Existem comidas fófis que só de falar o nome dá uma quentura no coração que minha nossa. São aqueles quitutes da infância, desastradamente abalroados pela vida real.
Hoje a rapaziada reclama que não dá mais tempo de comer. Na hora do almoço, a firma tá sempre esperando o retorno rápido do peão pra baia do desespero. Mas lembra como era bom destruir um bolinho de chuva, manter aquela bigodeira de açúcar e canela, lamber os dedos e beiços pra começar tudo de novo?
Então voltemos no tempo para configurar o perfeito conforto estomacal e espiritual do tempo que comer fazia sentido, porque era simples, bom pra cacete. Sem pressa. Era comer e prosear, prosear e comer.
Vem comigo e sinta a aconchegância:
Broinha de fubá mimoso
Aí ninguém segura, mermão. Com esse nome dá até dó de arrebentar o pãozinho imortalizado pelo canhestro literato Dalton Trevisan como símbolo do conforto da vida simples. No belíssimo livro de contos O Rei da Terra, tem uns quatro camarada que lamentam a ausência da broinha de fubá mimoso em suas vidas. Com razão.
Bolo de cenoura com calda de chocolate
Sacaneou. Quem nunca enfiou o dedo na maravilhosa lava marrom e degustou de olho fechado a maravilha de chocolate que escorre do indicador, que faça isso com urgência. E na hora que cortarem a fatia, dê uma espatulada pra raspar o tacho e esfregue na colina laranjada. Irrepreensível.
Suspirinho de recheio mole
O bróder que inventou esse troço tava cheio de maldade no coração. Pra clara de ovo e açúcar se transformar nisso, há de haver magia. Recoste-se na poltrona, ponha um inteiro na boca e espere derreter. Em seguida, faça questão de colar os molares um no outro com o material subsequente. Repita até implorar por água.
Quindim
A beleza do quindim está na degustação em duas etapas. Não se deve morder na vertical, mas na horizontal. Pegue o bichinho e utilize a arcada inferior para raspar aquela gema de ovo estupenda. Analise sua configuração dentária no que resta, veja se ainda precisa de aparelho, e passe a mordiscar a base. Glóriadeus.
Ovos nevados
A pessoa tem a cara de pau de preparar um mingauzinho aguado, sabor incrustado de baunilha, e ainda botar por cima claras em neve pra criançada brincar. Aí qualquer um navega os mares amarelos, empurrando com a colher o veleiro açucarado até o naufrágio final, na goela.
Bolinho de polvilho
É proibido morder. O lance do famoso sequilho é botar na boca e promover o vácuo enquanto ele murcha no contato com a baba. Aí vai ficando pequenininho, pequeninho, até que você obrigatoriamente mostra a língua para o irmão mais novo, como se tivesse conquistado a Libertadores com gol de mão aos 47 do segundo tempo.
Essas são apenas algumas das maravilhas nostálgicas da memória gastronômica de alguns de nós. E você, sente mais aconchegância com qual? Nenhum desses aí? Então se explique nos comentários e faça-se um favor: antes de ir a algum restaurante chiliquento e pagar o olho da cara, lembre-se deles. Da prosa e da simplicidade.
Vai um cafezinho?


