Como prometido, o Engasgo compareceu sim à Virada Cultural, um evento dos mais polêmicos da América Latina. Gentes de todas as sortes, idades, nacionalidades e compleições reunidas na cinzenta downtown São Paulo com um objetivo em comum: ?
Exato. Fica a pergunta. E se alguém souber responder, agradeço.
Ao menos o Engasgo sabia o que queria da vida: cantar com Nelson Ned, proferir urros despropositados junto aos fãs de Gal Costa, se acotovelar na massa vestida de preto amiga de Paul Di’Anno e caminhar em meio à turba com o sentimento oceânico do amor pelo rango de rua.
A expectativa era tanta que fomos sem papar. O que se configura um erro. A Virada Cultural está longe da tão sonhada virada estomacal, e o primeiro sinal da homérica furada gastronômica foi algo que Paulo Coelho descreveria como “váibe negativa”.

Ao aportar na região da Praça Roosevelt, notamos que o simpático Not Dog estava abandonado em horário de pico. A imagem é desoladora. O que seria a tão necessária azeitada para a bagunça virou doce ilusão. Porém, não desanimamos. Como dizem os britânicos, “If there is not dog, hunt with a cat.”
Soltamos o freio de mão e descemos na banguela em direção à Praça da República e arredores. Foi por ali, na décadance, que finalmente nos deleitamos com o primeiro pitisco. Um churrasquinho fumeguento.

Enquanto o casal virava a palitagem, resolvemos inquiri-los sobre os ingredientes do tira-gosto. “É de carne.” – “Mas qual carne?” – “É de carne”, redargüiu a moça com um sorriso marotíssimo. “E esse é o seu.” Passada a farofa e uma lapada de pimenta, degustamos o espetinho. Dois reais bem aplicados na poupança do colesterol.

Foi quando, no jogo dos acasos chamado vida, deparamo-nos com um Frank Zappa à espanhola chamado Pepe apreciando o primeiro miau de sua carreira. Este toureiro das madrugadas traçou o gatinho com gosto. “Deberia llamarse ‘Pincho Engrasado’“, em clara referência aos nacos de gordura que povoam 70% do quitute. “Pero no está malo.”
Para ele, porém, a lapada de pimenta foi explosiva. Com uma sede tremenda, apontamos a venda de vinho ae en la calle chamado 7 Colinas, nota 89/100 na Wine Spectator. Lavaria a ardência que invadia aquela alma castellana. Por sorte, Pepe não caiu nessa e continuou a banderillar as piriguetes que preenchiam os espaços vazios da rua.
Obviamente, nós não estávamos satisfeitos só com o espetinho. Ainda engatinhávamos a nível de experiências gastronômicas e éramos obrigados a ouvir Gal cantando “meu Brasil brasileiro”. La-men-tá-vel.
A caminhada subseqüente levou mais de duas horas. Nada de rangos de rua. Nem uma barraquinha, nem outro espetinho para comparar. Com fome e já um pouco alterados por conta de um mamá perturbador, encontramos o último e derradeiro objetivo. O churrasquinho grego. Enfim, o “Boi na Brasa”.

Antes de avaliar o sanduichinho, porém, vale uma ressalva. O pessoal do Boi na Brasa opera na velocidade da luz. Antes que você consiga enxergar o pão, ele já foi cortado. Antes de entender o que o cabra vai colocar dentro do pão, já era. É coisa de louco. “É assim que se ganha dinheiro”, explicou o dono da faca.

Façamos as contas. Cada sanduichinho de pão francês + recheio com ou sem salada vale R$ 1. Santodeuscrendiospai precisa vender muito com essa margem de lucro. E é o que ele faz.
Aproveitamos para instigar os ânimos da rapêize do Boi na Brasa. “Rapaz, mas é rápido o negócio aqui.” Ele sorriu, e acelerou ainda mais. A faca cortando tudo, boi, pão, e ainda tinha os 3 segundos que ele levava pra afiar o instrumento como break de interação. Só nesse momento é que ele troca mais de duas palavras com os fregueses. Fláshes estouravam nas redondezas. “Ôpa, estamos ficando famosos!” Tempo é dinheiro, e segue o baile.
Alimentamo-nos com os churrascos gregos do rapaz em duas versões. Com e sem salada. Com salada, a brincadeira é mais transada. Cebola, pimentão e algum tomate. Sem, insóssa um pouco. A carninha é temperada, mas não contribui muito às papilas gustativas. Vale, porém, todos os 100 centavos gastos na brincadeira. Em termos de custo x benefício, o Boi na Brasa estaria sendo o Santo Graal da gastronomia de rua.

Era o fim da virada estomacal. Os belíssimo sanduíches foram tragados, e nós fomos tragados pelo ânimo itinerante do evento. Caminhamos algo mais, não encontramos os yakissobas, e era hora de nanar. Ficou impossível fazer o Top 10, mas chegamos, certamente, ao top da noite. Obrigado, Boi na Brasa.
Sobre o show do Nelson Ned, perdemos já que houve atraso na chegada. E sobre o acotovelamento com o pessoal do Paul Di’Anno, deixamos a desejar. Quem sabe numa próxima entenderemos como é assistir a um show de heavy metal com uma garrafa de catuaba embaixo do braço.