
Os chiliquentos de plantão subestimam o traguinho aí ao lado.
Talvez porque o mamá custe oito reais a garrafa, seja feito de alcachofra e produza, misturado à simpática 51, o protuberante rabo-de-galo. Drinque paulada pra beber com cara feia. As pessoas fófis não agüentam o tranco e decidem pelo óbvio: preconceito.
Mas isso é porque a rapaziada fáshion passou reto no que seria a curva mais importante da deliciosa degustação do Cynar: seu valor simbólico. E sem apreciar o valor simbólico do mamá, fica fácil dizer que o troço não presta.
Então vem comigo. Imploda esta bobagem do seu coração. Deguste um Cynar on the rocks e avalie a profundidade de uma experiência alcoólica completa.
Em um copo de uísque, sirva uma generosa dose do Cynázinho. Nacos de gelo à vontade, talecoisa, e até guardanapo pra não molhar os dedinhos se for o caso. Chuchu beleza.
E agora vem o momento mágico. Ao mesmo tempo que você leva o copo à boca, com aquele mindinho espetado, pense naquela gata/gato mais conhecida(o) como frustração da sua nobre vida. A pessoa humana que te faz pensar: jesuis amado, mácoméqueufui entrar naquela.
Ainda sem dar a bicadinha, raciocine sobre todas aquelas mentirinhas abestalhadas que você contou para descobrir o corpo alheio. Quantas mentiras doces, deliciosas. Mentiras que fizeram com que você acreditasse que era boa gente, no final das contas. Que tinha futuro, e o escambau. Doces amassos no carro, no sofá, na baladinha. Louca pegação. Doce pegação!
Agora pronto. Com isso em mente, dê a bicadinha e deixe o sabor adocicado do mamá escorrer em sua viscosidade obscena. Ele explora suas gengivas, bate no céu da boca, passeia pela ponta da língua, explode em sabor. Doce, doce como o primeiro encontro, como a primeira mentirinha abestalhada, como o primeiro toque por debaixo da blusa. Ouriçam-se todos, você e o Cynar.
Agora lembre-se de quando a doce ilusão desvaneceu. O primeiro peidinho que escapou (e você não riu), a primeira muafa embaixo do braço, o primeiro sorriso de salsinha e a última estupidez que ele/ela falou. Ou seja, a primeira vez que passou a ver o(a) frustração da sua nobre vida com os olhos da amarga realidade.
É neste exato momento que você vai deixar o Cynázinho aportar na região posterior da sua língua, excitando papilas gustativas até então dormentes. Elas, sem dó e tampouco piedade, detonam no seu cérebro o amargor da desilusão. Amargo fim tem o amor, amargo fim tem o Cynar.
E assim como você superou o coração amargurado com um novo amor, supere o amarguinho do Cynar levando o copo à boca mais uma vez. Comece tudo de novo quantas vezes for preciso, porque o Cynar…
Ah! O Cynar é como o amor!
Drinks à base de Cynar:
Cynar on the rocks: Dose de Cynar, gelo à vontade. Fatia de limão opcional, para quebrar um pouco do amargor do mamá.
Rabo de galo: 1/2 Cynar, 1/2 Cachaça 51, pra tomar de martelinho.
Cynarite: Copo alto, 1/2 Cynar, gelo à vontade, complete com Sprite.
Assacynar: 1/2 Cynar, 1/2 Tequila, pra tomar de martelinho
Cerveja com cynar: 1/2 Cynar pra dar uma pintada na cerveja. Ruim não fica.