Puberdade interrompida

Outubro 16, 2009 por Engasgo

Vovó faz compota de pêssego, de abóbora, do cacete a quatro e a criançada adora. Mas a vovó grega, ah a vovó grega inventou moda. Atacou berinjelinhas e/ou beringelinhas minúsculas em sua puberdade e jogou na calda de açúcar. Polêmico? Pois é.

Atraque-se você também nas singelíssimas melitzanakis. Minizinhas tchuca-tchucas beringelinhas e/ou berinjelinhas pra lambuzar os beiços e dar um chupão no pescoço da gata já na sequencia. Adocicando aquele momento arrepiante, em que sobressaem os cabelos da nuca.

Sente o drama:

esfaqueadaAi que linda

A bering(j)elotinha pula do pote proveniente da estupenda ilha de Chios pra deixar embasbacado o centro nevrálgico do sabor em seu cérebro. A criança que um dia teve casca roxa mostra a nova roupagem verde, com transparência sensual. É de ficar namorando, em vez de comer.

Contou-nos um grego que a compota é servida como boas-vindas pra visita. Pois no nosso ponto de vista o certo é não servir pra ninguém e comer tudo sozinho. Realmente, causa ciumeira.

nikospetakis‘Vozê comer meu melitzanaki?’, atacou Nikos Petrakis

A compota foi faturada no Acrópoles, restaurante-fofura do post anterior. A calda é doce na medida, o gosto não é forçado. Tem um cravinho bem bobo. Eis o rótulo, pra não restar dúvida. Valeu R$ 15.

rotulobomLambuzê

Pra ornar com alguma coisa, já não se sabe. Compota é coisa de comer sozinha. Na harmonização ocasional, promovemos o rebatimento com um uisquinho Jim Beam. Foi que foi.

Gregaiada insana

Outubro 12, 2009 por Engasgo

Refeição completa é aquela que o peão faz na váibe vida mansa e chega em casa pronto pra botar o pijama. Porque é preciso jiboiar o material deglutido com torpor e sorriso no rosto. Assim que, após soneca de sair do corpo, o Engasgo sentiu-se na obrigação de escrever sobre sua visita à Atenas paulistana. O restaurante-fofura Acrópoles.

Portinhola simplezona no meio do fuzuê do Bom Retiro, bairro das compritchas de roupa barata. Seje bem-vindo:

entradaO reduto platônico

Pra quem ainda não conhece o comedouro, a recomendação é fugir da hora do rush. Entre as 12h e 15h de fim de semana, o cantinho aconchegante azul e branco transforma-se no caos absoluto. É carnaval ateniense. Não tem mesa suficiente e o atendimento cai para o minimalismo. E como peão tem de se servir na cozinha – nem peça cardápio que não tem -, a pegada é de bandejão da firma.

Mas quando o horário não é o que o estômago dita, vale muitíssimo a queda. Tudo calmo. Cozinha à disposição.

DSC00491Fumegância suculenta

Tem de tudo na parada. Esbalde-se na moussaka, na lula recheada, no peixe, no pato ou no cabrito. Mas antes é indispensabilíssimo azeitar as paredes estomacais com a meia salada. Alfacinha, tomate bem maduro, azeitona preta e verde, cebolinha em conserva, pepinão e queijo feta.

salada Tudo no azeitelimão, haja coração

Após a deglutição parcial da salada, caímos na tentação e atacamos o salmãozão com molho de limão e ervas ladeado por um ingênuo risoto de frutos do mar. Material de altíssimo nível que veio ornando legal com o azeitume. O limão ataca na acidez, o risoto segura na gordura, o salmão vem no adocicado, o limão não deixa e aí nesse quebrapau gastronômico surge o tal do equilíbrio maravilhoso de sabores.

salmao2À frente, o risoto e o salmão; ao fundo, a invejosa salada

Em meio a urros de prazer durante a degustação, ficou bastante claro que um prato e meia salada seguram bem a onda pra duas pessoas. Porque se você tá indo ali é pra curtir com calma, e não pra se arrebentar e ficar lembrando do marisco o resto do dia. Sintonize no ambiente, mire no grego dono do restaurante, e puxe um papinho. O nome da fera é Thrassyopoulos Petrakis, mas manda um “ô Seu Trasso” que ele atende.

trassoTrasso no comando: “Tou falando grego, por acaso?”

A fera empunha a bandeira da Grécia em São Paulo já faz 48 anos e no caso ele tem história pra contar. Mas atenção pra ressalva. Só dá pra chamar o bróder fora do horário do rush, quando ele explora com mais afinco suas raízes filosóficas.

Papou legal e proseou? Agora é a hora do mamázinho digestivo. Ataque o Ouzo, drinquezinho de anis que no gelo branqueia como o Arak. Tudo igual, mas é grego então é nóis:

ouzoOuze você também

Aí né, com o salmão nadando no aquário de Ouzo que virou seu estômago, imploda as vísceras cimentando tudo com uma sobremesa transada. Depois da difícil escolha, já que a prateleira está estufada de açúcares maravilhosos, elegemos o tal do melomakárono. Nome complicado prum trequinho pequeno e fabuloso, bolinho de mel e amêndoas maldoso à beça.

meloQuartzolit de primeira

Faturamos o Acrópoles, certamente uma belíssima experiência gastronômica com direito a mamá, sobremesa e cafezinho. A única cilada do local é o preço. Não se avexe e faça questão de perguntar por valores. Antes de ir, anote na planilha do Excel que você vai gastar uns 40 mango por cabeça. Mas é comida boa, com aconchegância suficiente pra voltar pra casa jiboiando.

Acrópoles
Rua da Graça, 364, Bom Retiro – estacionamento na rua com Zona Azul
Atendimento: Bacana, mas só fora da hora do rush
Ambiente: Tá cheio de poster da Grécia e garrafas de Ouzo
Custo-benefício: Tendo dinheiro, dá nota 8
Para ir com: A gata a tira-colo num sábado bobo à tarde

Ah, minha rainha

Outubro 10, 2009 por Engasgo

Depois do fumacê generalizado do post anterior, é muito claro, claríssimo, obviedade patente que é necessário arrumar uma cana ponta firme pra acompanhar os paieirinho.

A sugestã é oriunda da pacata Bananeiras, no brejo paraibano. Cidadezinha transada, dona de suculentas trilhas para cachoeiras, dizem que vale a queda chegar por lá pra curtir fauna, flora e cana do nordeste.

Uma das trilhas leva ao Engenho da Cachaça Rainha. Ah, minha rainha!

Eis o rótulo:

rainhajanela‘Vem ni mim’

Paraíba, fato, não é lá a região da cana. Só 1,4% da produção nacional do mamazinho vem da terra dos Cunha Lima. Estudo bacanaço que triturou os moldes da fabricação cachaceira na área aponta que a confecção do mata-bicho é feita por micro e pequenos engenhos.

E lá esse esquema de envelhecer em barril de umburana, jequitibá, carvalho e afins não cola. O lance é se arrebentar na branquinha. Transparência surpreendente. Confere:

rainhanaluz‘Só pra você’

Rainha, sugere o rótulo, data de 1877. Ou seja, depois de tanto tempo a rapaziada no mínimo aprendeu a fazer o troço direito. O drinque é coroado pela elevada graduação alcoólica. Tiro na mente de calibre 50 GL.

A Rainha é má e é bom gostar de apanhar. Malemolente, ela escorre gostosa pela língua sem estuprar os sentidos. Desce alegre. O estrago no corpo da vítima é a posteriori, como na maçã oferecida à ingênua Branca de Neve.

Garrafa sai a R$ 12 no mercadão de Campina Grande. Tá entre as mais baratas. Nas lojas especializadas, até R$ 20. Trouxa que deixar pra comprar em boutique de aeroporto paga R$ 40.