Arquivo da categoria ‘Reportagem especial’

Fumacê generalizado

Outubro 8, 2009

Há uma canção do grupo inglês Black Sabbath em que o frenético Ozzy Osbourne alardeia sem dó seu amor pela Sweet Leaf. E o bagulho tem início com uma tossida de cachorro véio que simboliza ao extremo a váibe dessa reportagem especial do Engasgo.

Ao som do Sabbázão, degustamos aquilo que pode ser chamado de pecado pelos puristas tradicionalistas histéricos, mas tá nas prateleira das tabacarias e é barato então azar. Fomo ver qualéqueé dos paieirinhos encaixotados e analisamos o poder de explosão neuronal e de destruição pulmonar dos bichinhos.

Saca o naipe da rapaziada:

paieirosDa esquerda pra direita: Souza Paiol no ataque, Piracanjuba caindo pelo meio, VelhoJou de ponta de lança, Paieirinho de Minas na cabeça de área e Crioulos, o bécão tranca-rua.

O hábito do paieirinho é maravilha total, mas só pra quem sabe curtir o troço. Peão que se aventura a queimar o material como se fosse Derby azul, Hollywood verde ou Marlboro vermelho cai na cilada da enxaqueca interminável.

O lance é se apresentar pro jogo sem pressa, curtir o fumacê generalizado e brincar de pitar, coisa que a juventude desconhece de tanta ansiosidade ejaculatória. A moçada tende a mamar na biqueira como se fosse pirulito Zorro.

Pois bem. Após a nocta introductória, vamos ao épravaler.

Souza Paiol

souzapaiolNa simpática caixola pósa um cowboy assanhado. O site, como você pode ver aqui, tá com pobrema. Mas na primeira pitada o Souza Paiol carrega consigo a suavidade polêmica, que engana trouxa. Bateu no sinão da garganta, queima feito cachaça cabeçuda. O material vem lá da metrópole mineira Pitangui e valeu R$ 3,60 – cada centavo depositado na conta do prazer efêmero do paieirinho rápido. Fininho e provocante.

Piracanjuba

piracanjubaPense num paieiro goiano envolvido em imbróglio judicial porque havia supostamente plagiado o grande Tex em seu frontispício, sem a devida autorização dos editores daquele comic book do velho oeste. E teve que mudar a fachada. Portanto, só de acender o robusto paierão Piracanjuba, bróder já tem história pra contar. O bichão ainda vem vazando fumo da paia, conferindo um visual rastafári. No acendimento da peça, já se sente a diferença: tabaco mais forte que incrivelmente vem suave, pra degustar em prosa longa. Saiu a R$ 4,50.

VelhoJou

velhojouO visu old west já tá cansando, mas esse aí tem o lance do fim de tarde, que orna bem com o sabor do VelhoJou. Tem um quê de docinho, feito brisa com cheiro de mato. Não dá pra saber de onde vem o material, mas sugere-se que o DDD 31 do SAC VelhoJou confira a proveniência a BH e/ou arredores. O bichinho vem na pegada rápida, ao estáile Souza Paiol, mas tem um quê saborificante a mais. E vai que vai com um doce de leite branquinho, sob a cifra mais barata de todas – R$ 3,40.

Paieirinho de Minas

paieirinho de minasSimplezão e de ataque intermediário às papilas gustativas, a R$ 3,60 uma caixinha que vale a pena pra dar o pontapé inicial na arte de pitar. O material fumeguento queima leve, sem grandes profusões explosivas, porque carrega entranhado um naco de algodão na boca da piteira. Coisa linda é avaliar como a brancura da fiapeira sai black feito carvão de churrasco. Como não há referências na WWW, apelamos novamente ao DDD do SAC, de número 37. E o prêmio vai, mais uma vez, para a metrópole mineira Pitangui.

Crioulos

CrioulosComo diria o bróder do Jornalista de Merda, aqui a ôia é pesada. O trambolho lembra a entrada degradante do lateral do Bangu Márcio Nunes no Galinho de Quintino nos idos de 85. O naipe de béque de congresso de comunicação se reflete na porrada mental do paieraço Crioulo. De largo diâmetro e larga envergadura, a generosidade provém da simpática Palmeira das Missões, pertinho de São Pedro das Missões, São José das Missões, Boa Vista das Missões e Dois Irmãos das Missões, em terras gaúchas. E sua missão, agora, é tentar fumar o parrudo como quem tá brincando de playmobil num domingo chuvoso. Haja causo pra arrematar o Crioulo, o bécão da rodada, cujo caixote sai na vaibe custo x horas de degustação. R$ 4,80.

Pois então acabou, pitamos geral e o resultado é que cada um escolhe o que lhe convém. A arte de fazer fumacinha, por mais que faça mal e o cacete a quatro, tem seu charminho e não adianta rapaziada meter lei pra proibir, que nos recôncavos mais íntimos da humanidade alguém vai enrolar, botar na boca e acender com cara tesão.

Na foto meramente ilustrativa abaixo, a pujança do Crioulo sobre os demais concorrentes da noite.

cinzeiro

E agora dá licença que vai rolar sal de fruta com neosaldina.

Alimentação itinerante na Virada Cultural

Abril 27, 2008

Como prometido, o Engasgo compareceu sim à Virada Cultural, um evento dos mais polêmicos da América Latina. Gentes de todas as sortes, idades, nacionalidades e compleições reunidas na cinzenta downtown São Paulo com um objetivo em comum: ?

Exato. Fica a pergunta. E se alguém souber responder, agradeço.

Ao menos o Engasgo sabia o que queria da vida: cantar com Nelson Ned, proferir urros despropositados junto aos fãs de Gal Costa, se acotovelar na massa vestida de preto amiga de Paul Di’Anno e caminhar em meio à turba com o sentimento oceânico do amor pelo rango de rua.

A expectativa era tanta que fomos sem papar. O que se configura um erro. A Virada Cultural está longe da tão sonhada virada estomacal, e o primeiro sinal da homérica furada gastronômica foi algo que Paulo Coelho descreveria como “váibe negativa”.

Ao aportar na região da Praça Roosevelt, notamos que o simpático Not Dog estava abandonado em horário de pico. A imagem é desoladora. O que seria a tão necessária azeitada para a bagunça virou doce ilusão. Porém, não desanimamos. Como dizem os britânicos, “If there is not dog, hunt with a cat.”

Soltamos o freio de mão e descemos na banguela em direção à Praça da República e arredores. Foi por ali, na décadance, que finalmente nos deleitamos com o primeiro pitisco. Um churrasquinho fumeguento.

Enquanto o casal virava a palitagem, resolvemos inquiri-los sobre os ingredientes do tira-gosto. “É de carne.” – “Mas qual carne?” – “É de carne”, redargüiu a moça com um sorriso marotíssimo. “E esse é o seu.” Passada a farofa e uma lapada de pimenta, degustamos o espetinho. Dois reais bem aplicados na poupança do colesterol.

Foi quando, no jogo dos acasos chamado vida, deparamo-nos com um Frank Zappa à espanhola chamado Pepe apreciando o primeiro miau de sua carreira. Este toureiro das madrugadas traçou o gatinho com gosto. “Deberia llamarse ‘Pincho Engrasado’“, em clara referência aos nacos de gordura que povoam 70% do quitute. “Pero no está malo.”

Para ele, porém, a lapada de pimenta foi explosiva. Com uma sede tremenda, apontamos a venda de vinho ae en la calle chamado 7 Colinas, nota 89/100 na Wine Spectator. Lavaria a ardência que invadia aquela alma castellana. Por sorte, Pepe não caiu nessa e continuou a banderillar as piriguetes que preenchiam os espaços vazios da rua.

Obviamente, nós não estávamos satisfeitos só com o espetinho. Ainda engatinhávamos a nível de experiências gastronômicas e éramos obrigados a ouvir Gal cantando “meu Brasil brasileiro”. La-men-tá-vel.

A caminhada subseqüente levou mais de duas horas. Nada de rangos de rua. Nem uma barraquinha, nem outro espetinho para comparar. Com fome e já um pouco alterados por conta de um mamá perturbador, encontramos o último e derradeiro objetivo. O churrasquinho grego. Enfim, o “Boi na Brasa”.

Antes de avaliar o sanduichinho, porém, vale uma ressalva. O pessoal do Boi na Brasa opera na velocidade da luz. Antes que você consiga enxergar o pão, ele já foi cortado. Antes de entender o que o cabra vai colocar dentro do pão, já era. É coisa de louco. “É assim que se ganha dinheiro”, explicou o dono da faca.

Façamos as contas. Cada sanduichinho de pão francês + recheio com ou sem salada vale R$ 1. Santodeuscrendiospai precisa vender muito com essa margem de lucro. E é o que ele faz.

Aproveitamos para instigar os ânimos da rapêize do Boi na Brasa. “Rapaz, mas é rápido o negócio aqui.” Ele sorriu, e acelerou ainda mais. A faca cortando tudo, boi, pão, e ainda tinha os 3 segundos que ele levava pra afiar o instrumento como break de interação. Só nesse momento é que ele troca mais de duas palavras com os fregueses. Fláshes estouravam nas redondezas. “Ôpa, estamos ficando famosos!” Tempo é dinheiro, e segue o baile.

Alimentamo-nos com os churrascos gregos do rapaz em duas versões. Com e sem salada. Com salada, a brincadeira é mais transada. Cebola, pimentão e algum tomate. Sem, insóssa um pouco. A carninha é temperada, mas não contribui muito às papilas gustativas. Vale, porém, todos os 100 centavos gastos na brincadeira. Em termos de custo x benefício, o Boi na Brasa estaria sendo o Santo Graal da gastronomia de rua.

Era o fim da virada estomacal. Os belíssimo sanduíches foram tragados, e nós fomos tragados pelo ânimo itinerante do evento. Caminhamos algo mais, não encontramos os yakissobas, e era hora de nanar. Ficou impossível fazer o Top 10, mas chegamos, certamente, ao top da noite. Obrigado, Boi na Brasa.

Sobre o show do Nelson Ned, perdemos já que houve atraso na chegada. E sobre o acotovelamento com o pessoal do Paul Di’Anno, deixamos a desejar. Quem sabe numa próxima entenderemos como é assistir a um show de heavy metal com uma garrafa de catuaba embaixo do braço.