Arquivo da categoria ‘Néctares maravilhosos’

O Brasil parou

Outubro 22, 2009

Há momentos em que a patronagem toma conta, mas o sangue vira-lata não deixa. E aí a mistura que se espera é explosiva. O ataque foi sucinto, sorrateiro feito jaguatirica enfezada. Da prateleira do simpaticíssimo Jhony’s Bar, na zona norte paulistana, beirando a Marginal do Tietê, espirrou um bróder chamado Anísio Santiago.

22102008(003)Cana de luxo

Da cozinha comandada por dona Sandra, uma cumbuquinha fumeguenta trouxe à cena o perfeito caldo maldoso para harmonização: Mocofava.

22102008(004)Casal 20

A famosa cana Anísio Santiago é algo à parte. Material estupendo. É naipão de uísque 18 anos. Niquique chega amortece a zona bucomaxilar, exala sabores, madeira perfeita, sucesso total.

E a mocofava arrebenta tudo no coentro bem postado, no mocotó chicletão, na costelinha mais derretida que mulher de malandro. É de embasbacar. Sandra não revela a receita, só enumera o conteúdo com sorriso matreiro. “Se eu te contar como faz, você não vem mais”, argumenta.

Na degustação, o Brasil parou. A marginal, que escorria talequal torneira descalibrada, atravancou-se violentamente.

E viu Deus que era bom.

Ah, minha rainha

Outubro 10, 2009

Depois do fumacê generalizado do post anterior, é muito claro, claríssimo, obviedade patente que é necessário arrumar uma cana ponta firme pra acompanhar os paieirinho.

A sugestã é oriunda da pacata Bananeiras, no brejo paraibano. Cidadezinha transada, dona de suculentas trilhas para cachoeiras, dizem que vale a queda chegar por lá pra curtir fauna, flora e cana do nordeste.

Uma das trilhas leva ao Engenho da Cachaça Rainha. Ah, minha rainha!

Eis o rótulo:

rainhajanela‘Vem ni mim’

Paraíba, fato, não é lá a região da cana. Só 1,4% da produção nacional do mamazinho vem da terra dos Cunha Lima. Estudo bacanaço que triturou os moldes da fabricação cachaceira na área aponta que a confecção do mata-bicho é feita por micro e pequenos engenhos.

E lá esse esquema de envelhecer em barril de umburana, jequitibá, carvalho e afins não cola. O lance é se arrebentar na branquinha. Transparência surpreendente. Confere:

rainhanaluz‘Só pra você’

Rainha, sugere o rótulo, data de 1877. Ou seja, depois de tanto tempo a rapaziada no mínimo aprendeu a fazer o troço direito. O drinque é coroado pela elevada graduação alcoólica. Tiro na mente de calibre 50 GL.

A Rainha é má e é bom gostar de apanhar. Malemolente, ela escorre gostosa pela língua sem estuprar os sentidos. Desce alegre. O estrago no corpo da vítima é a posteriori, como na maçã oferecida à ingênua Branca de Neve.

Garrafa sai a R$ 12 no mercadão de Campina Grande. Tá entre as mais baratas. Nas lojas especializadas, até R$ 20. Trouxa que deixar pra comprar em boutique de aeroporto paga R$ 40.

Fofura nórdica

Outubro 4, 2009

Um dia o Engasgo volta a falar de comida. Mas no momento os mamás do mundo vêm conquistando o coração. Não há como deturpar do caminhDSC00467o de garrafa tão bela como a que segue nessa foto. Aquavit.

Água da vida, mamazinho proveniente do mundo nórdico, mais especificamente da portentosa Noruega. Pode faltar tempero pro povo que lá habita, mas nesse 0,75 L de pura cana bem afagada com altas quantidades de ervas, sobra sabor.

Conta a história que um norueguês se lançou ao mar – ah vá, diria um bróder. Norueguês adora se lançar ao mar, é fato, mas um peão teve a brilhante ideia, 200 anos atrás, de tentar vender sua caninha em terras polinésicas. Lançou-se ao mar com um belo estoque do destilado sem graça de batata que meteu no porão.

Onda vai, onda vem, e a cana lá. Cruza o Panamá e vai com Deus. Desembarca nas Filipinas e adivinha. Ninguém quis comprar o mamazinho, que retornou como veio.

Aí sim, fomos surpreendidos novamente.

Na chegada à Noruega a moçada rebenta o caixote e o mamá virou essa maravilhosa caninha.

Diz que é culpa do calor, do balanço das ondas, aquela lenga lenga mágica. O que interessa é que o troço se transforma numa pinguinha forte, amarelinha e  consistente. Tá lá que o ingrediente principal é kümmel. Uma sementinha sacanegeira, que amargueia na panela. Já no Aquavit, vira sucesso fenomenal.

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Norueguesinho calibrado de Aquavit

Como o governo norueguês tem a pecha de deter o monopólio da cana, a garrafa sai o olho da cara por lá. Eles metem a faca por graduação alcoólica, e o Aquavitezinho tem lá seus 42 porcentinhos. Meu nobre, a saída é uma só: free shop.

Aí não tem erro e sai a preço de uísque marromenos. E vale muito mais. Pra tomar com gelinho, antes e depois do almoço, a delícia desintegra qualquer mau-humor e dá uma tremenda coceira no fiorde.