Arquivo da categoria ‘Bares e restaurantes’

Gregaiada insana

Outubro 12, 2009

Refeição completa é aquela que o peão faz na váibe vida mansa e chega em casa pronto pra botar o pijama. Porque é preciso jiboiar o material deglutido com torpor e sorriso no rosto. Assim que, após soneca de sair do corpo, o Engasgo sentiu-se na obrigação de escrever sobre sua visita à Atenas paulistana. O restaurante-fofura Acrópoles.

Portinhola simplezona no meio do fuzuê do Bom Retiro, bairro das compritchas de roupa barata. Seje bem-vindo:

entradaO reduto platônico

Pra quem ainda não conhece o comedouro, a recomendação é fugir da hora do rush. Entre as 12h e 15h de fim de semana, o cantinho aconchegante azul e branco transforma-se no caos absoluto. É carnaval ateniense. Não tem mesa suficiente e o atendimento cai para o minimalismo. E como peão tem de se servir na cozinha – nem peça cardápio que não tem -, a pegada é de bandejão da firma.

Mas quando o horário não é o que o estômago dita, vale muitíssimo a queda. Tudo calmo. Cozinha à disposição.

DSC00491Fumegância suculenta

Tem de tudo na parada. Esbalde-se na moussaka, na lula recheada, no peixe, no pato ou no cabrito. Mas antes é indispensabilíssimo azeitar as paredes estomacais com a meia salada. Alfacinha, tomate bem maduro, azeitona preta e verde, cebolinha em conserva, pepinão e queijo feta.

salada Tudo no azeitelimão, haja coração

Após a deglutição parcial da salada, caímos na tentação e atacamos o salmãozão com molho de limão e ervas ladeado por um ingênuo risoto de frutos do mar. Material de altíssimo nível que veio ornando legal com o azeitume. O limão ataca na acidez, o risoto segura na gordura, o salmão vem no adocicado, o limão não deixa e aí nesse quebrapau gastronômico surge o tal do equilíbrio maravilhoso de sabores.

salmao2À frente, o risoto e o salmão; ao fundo, a invejosa salada

Em meio a urros de prazer durante a degustação, ficou bastante claro que um prato e meia salada seguram bem a onda pra duas pessoas. Porque se você tá indo ali é pra curtir com calma, e não pra se arrebentar e ficar lembrando do marisco o resto do dia. Sintonize no ambiente, mire no grego dono do restaurante, e puxe um papinho. O nome da fera é Thrassyopoulos Petrakis, mas manda um “ô Seu Trasso” que ele atende.

trassoTrasso no comando: “Tou falando grego, por acaso?”

A fera empunha a bandeira da Grécia em São Paulo já faz 48 anos e no caso ele tem história pra contar. Mas atenção pra ressalva. Só dá pra chamar o bróder fora do horário do rush, quando ele explora com mais afinco suas raízes filosóficas.

Papou legal e proseou? Agora é a hora do mamázinho digestivo. Ataque o Ouzo, drinquezinho de anis que no gelo branqueia como o Arak. Tudo igual, mas é grego então é nóis:

ouzoOuze você também

Aí né, com o salmão nadando no aquário de Ouzo que virou seu estômago, imploda as vísceras cimentando tudo com uma sobremesa transada. Depois da difícil escolha, já que a prateleira está estufada de açúcares maravilhosos, elegemos o tal do melomakárono. Nome complicado prum trequinho pequeno e fabuloso, bolinho de mel e amêndoas maldoso à beça.

meloQuartzolit de primeira

Faturamos o Acrópoles, certamente uma belíssima experiência gastronômica com direito a mamá, sobremesa e cafezinho. A única cilada do local é o preço. Não se avexe e faça questão de perguntar por valores. Antes de ir, anote na planilha do Excel que você vai gastar uns 40 mango por cabeça. Mas é comida boa, com aconchegância suficiente pra voltar pra casa jiboiando.

Acrópoles
Rua da Graça, 364, Bom Retiro – estacionamento na rua com Zona Azul
Atendimento: Bacana, mas só fora da hora do rush
Ambiente: Tá cheio de poster da Grécia e garrafas de Ouzo
Custo-benefício: Tendo dinheiro, dá nota 8
Para ir com: A gata a tira-colo num sábado bobo à tarde

Gostosa

Junho 5, 2008

Na praia, deitada sobre uma canga branquinha, estava ela. Pezinhos pequenos, batatas da perna suculentas, coxas imperdíveis.

Meu olhar acabou perdido no dela. “Pode passar o limão nas minhas costas?”, pediu, com um sorriso sacanegeiro.

Passei-o vagarosamente e, em seguida, passei a degustá-la.

Uma das mais deliciosas rãs da praça encontra-se no Aperitivos Valadares. Em plena Zona Oeste de São Paulo (Rua Faustolo, 467, Lapa) um quê de erotismo praieiro para quem aprecia o mundo dos mais belíssimos pitiscos do planeta.

A R$ 8,50, carne que derrete ao paladar sob o bronze da mais perfeita milanesa.

Além do horizonte

Maio 26, 2008

“Além do horizonte
(Av. Direitos Humanos, 2059, Mandaqui, São Paulo)
Existe um lugar
(Paraíso da Cachaça)
Bonito e tranqüilo
(Garaginha transada)
Pra gente se amar”.
(Cana e quitutes finíssimos)

Mesmo que Rei Roberto Carlos não tenha se referido ao distinto local, cada verso do riff de “Além do Horizonte” se constitui à imagem e semelhança de um dos bares mais transados e escondidos do formigueiro brasileiro mais conhecido como São Paulo.

O Paraíso da Cachaça é assim: mesinha pra fora, ambiente agradabilíssimo, atendimento nota 11 e preços que cabem no bolso do mais humilde assalariado. A barateza do mamá é tão grande, mas tão grande, que as cachacinhas, pobrezinhas, são obrigadas a permanecer atrás das grades, aprisionadas pelo bem dos sedentos freqüentadores. Mas isso jamais seria um problema para quem adora uma noite agradável na companhia dos amigos.

Abanque-se nas banquetas personalizadas, chame o gigante Carlão, bróder proprietário da casa, e peça-lhe uma cachaça, uma porção de pimenta biquinho, um roll-mops, uma porção de amendoim, uma mussarela temperada e, pelamordedeus, você não vai gastar com isso mais de R$ 10. A nível de São Paulo, sabemos que essa grana não dá pra beber duas cervejas em certos locais que preferimos não citar localizados na Vila “Chilique” Madalena.

O mais lindo de tudo é que quando você pedir a cana pro Carlão, a resposta invariavelmente será: “De que madeira você gosta?”

Escolha a sua – carvalho, umburana, jequitibá, bálsamo – e aproveite para bebericar à vontade. Carlão oferece o traguinho em uma leve pincelada no copo para você cheirar e degustar. Ele sabe, o sacana, que inebriar os sentidos traz mais sede ao fígado.

Assim, na breve estada no Paraíso da Cachaça entornamos Caribé, Claudionor, 38 e mais uma que no momento não conseguimos recordar por razões óbvias. Apreciamos os mamás ao ritmo da pimenta biquinho, da mussarela temperada, da salsicha em conserva e do amendoim japonês. No BG, rock de alto nível para embalar a conversa amistosa.

A despedida foi triste. O Psiu de Kassab fez com que partíssemos para campos mais verdes. Carlão, simpático, adeusou-se com um “apareça, tem muitas outras ainda pra você experimentar”.

Vai recusar?